Putz.

* O Ivan era do tipo do cara que tinha que ser canonizado. A gente pisou em Sâo Paulo pela primeira vez em meados de 2008, para 2 shows, que na verdade acabaram sendo 1 e meio. O ‘contratante’ jamais apareceu, a gente se virou, atravessou a cidade sem nunca ter andado de metrô, com instrumentos, e o escambau. 4 bangus de apartamento perdidos naquele entreveiro de minhocas de metal.

* Não tinha onde dormir. Dormimos numa construção, somente porque o Gui teve a sorte de conhecer uma mina que nos descolou aquele cantinho empoeirado. Ás 6 da manhã, fomos enxotados da baia pela mãe da moça. Novamente perdidos, rumamos para uma Verdurada no metrô jabaquara. Mendigamos um espaço e o organizador permitiu que abríssemos aquela tarde de shows, tocando para meia dúzia de pessoas umas 5 ou 6 músicas, naquele dia que ainda teria Noção de Nada.

* Foi lá que eu conheci o Ivan. Era um fã. Sim, um fã em 2008. Eram pouquíssimos, raros. Ele soube do nosso sufoco e nos ofereceu sua casa. E era longe, a porra. E era pequena, menor que o meu quarto. Mas ele abrigou nós quatro, deu comida, mostrou um DVD importado do Dashboard. O dia seguinte era de show em Caçapava. Não teve show. Fugimos de ladrões, demos calote na van, estávamos falidos. O Ivan nos pagou um lanche no Bob’s.

* Sempre que pude, mantive contato com ele. Pouco, mas mantive. Vez que outra ele pintava num show nosso, sempre orgulhoso de nos ter salvado a vida, e era sempre devidamente ovacionado por nós.

* Naquele mesmo dia, eu lembro de demorar mais de 12 horas para perceber que ele não tinha uma perna. Porra, ele corria, dançava, até cantava numa banda, porra. Só fomos descobrir quando ele entrou pela porta dianteira do ônibus. Ao ser perguntado, ele foi direto: “eu não tenho uma perna”. Aquilo me pegou de revesgueio, como uma bifa no lado da cara, pra deixar de ser lóque. Ele não tava nem aí. Nem um pouco aqui.

* Ivan, tua passagem por aqui foi uma história de luta, de bondade, e de amizade sem limites, sem tamanho, sem preço, sem volta. Faz brilhar uma estrela, dá umas barbadas pra gente, canta umas pedras, porque tá todo mundo fudido aqui embaixo, sem saber o que fazer. Agora ainda mais, sem a certeza da tua presença, em algum lugar dessa cidade poluída. Muita gente te ama, e fica aqui tentando ser tão foda quanto tu foi. Tu é.

* Deve ser fantástico, o teu novo mundo, Bob. Aproveita.

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