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Capítulo 6

fevereiro 23, 2011

Agora estou atualizado sobre as manhas de manuseio dessa bebida típica do Rio Grande, afinal de contas, já faz um tempo que estou aqui jogando conversa fora entre um mate e outro. A Cássia me parece uma pessoa bem descolada, daquelas que falam com a leveza e quem não atribui às palavras a importância irreversível e cada sentença. A Bárbara é mais serena, traz um pouco daquela calma invejável que é a base da elegância.
– O que vocês estão fazendo aqui neste fim de mundo? – pergunto com um ar de surpreso.
– A gente trabalha com pesquisas de animais e plantas, vamos ser biólogas. Estudamos os bichinhos.
Eu tinha certeza e que elas eram biólogas, foi o meu primeiro palpite.
– Que bacana, acho masse essa área. Os animais têm muita coisa pra ensinar pra gente, que anda tão distante da natureza.
– Principalmente sobre o sexo – disse Cássia com um tom irônico.
– Cássia, vê se não começa! – falou Bárbara.
– A fidelidade é um privilégio de pessoas feias, gordas e desinteressantes – falou Cássia ainda mais irônica.
A frase soa bombástica na peça que tem o tamanho do mundo. Ficarei quieto por alguns instantes enquanto assimilo o fato de que ela realmente tenha dito isso.
– Eu acho que você está sendo radical demais, Cássia – falou Bárbara.
– O chimarrão esfriou – falei, pra desviar um pouco o assunto que surgiu de sobressalto na conversa.
Tudo bem que eu já estou aqui há um bom tempo, mas não dá pra não achar estranho que elas levem esse tipo de papo na frente de alguém tão pouco íntimo como eu. Claro que não é necessariamente fundamental a intimidade para discutir questões como estas, mas que é gozado é. Começa agora a me passar pela cabeça um monte de possibilidades: para que duas gurias consigam formular uma conversa dessas sem nenhum constrangimento é preciso uma cabeça “aberta”, o que me faz pensar que elas possam ser até namoradas.
– Tá certo que o conceito de fidelidade é baseado em questões ecônomicas e culturais, mas também não é bem assim. Tem um monte de gente que curte o lance de ser fiel sem necessariamente fazer parte desses grupos dos feios, gordos ou desinteressantes – falou Bárbara, tentando amenizar um pouco aquela sentença extravegante.
– Então é por sacrifício.
– Qual, é Cássia? O nosso vizinho deve estar apavorado com estes teus exageros.
– Não, continuem a discussão. Eu quero entender o que a Cássia quer dizer com essa história de sacrifício.
– Na verdade, as pessoas todas se relacionam na base do sacrifício. O fato de se privar das coisas tentadoras da vida traz uma espécie de direito de uma pessoa sobre a outra. O direito da cobrança do sacrifício. Eu me sacrifiquei por você então você me deve. Como uma moeda medida pelo quanto um se sacrifica a mais que o outro.
Ao mesmo tempo em que presto atenção no sermão da Cássia, não consigo deixar de reparar no jeito da Bárbara. Seus lábios, a expressão de quem, com toda calma do mundo, escuta uma argumentação contrária às suas convicções e nem por um segundo desfaz o semblante seguro de quem se gosta. Esta é a principal questão, ela se gosta. Posso ver isso nos seus olhos. Ela faz com que o reflexo do que somos se amplie ao passar por sua percepção. Como que servindo de filtro para melhorar a nossa própria imagem.
– Ok, Cássia, de certa forma eu acho que tem muita coisa coerente no que tu tá falando, mas vamos mudar de assunto – falou Bárbara com a voz firme.
– Bárbara, tu sabe que eu gosto de falar umas frases de efeito e que não sejam necessariamente mais do que apenas frases para que a gente possa falar e refletir de alguma forma. ‘Uma verdade deixa de ser uma verdade quando mais de uma pessoa acredita nela.’ Oscar Wilde.
A Cássia está se espreguiçando ao mesmo tempo que olha sutilmente para o relógio. Hora de cair fora.
– Acho que já está ficando tarde.
– Imagina! – fala Cássia, confirmando minhas suspeitas, enquanto Bárbara olha para mim.
Vejo no rosto de Bárbara algo que me intriga, uma familiaridade estranha, como se de alguma forma eu já a conhecesse e por ela sentisse uma prediposição. Na verdade, o que mais me ajuda a acreditar nisso é o sentimento que percebo por Cássia. Uma sensação bem diferente, gosto dela, mas não sinto familiaridade nenhuma, pelo contrário, parece ser uma presença que de alguma forma me incomoda.
Dei os três beijinhos em cada uma e agora estou aqui na rua há mais ou menos dez passos de casa. A cada passo que dou sinto passear por um universo atemporal onde o cenário é propício para qualquer projeção. Estou pensando em Bárbara mas ao mesmo tempo todo este ambiente, o muro, o orvalho, os insetos, o barulho das ondes, me trazem Helena e a lembrança conturbada de algo que ficou para trás.
A porta não está trancada. Estou confuso com relação ao sentimento que me despertou a Bárbara e ao que de fato elas têm uma com a outra. Posso estar viajando ao suspeitar sobre o comportamento das duas. A propósito, esqueci de perguntar até quando elas pretendem ficar aqui na praia com este frio todo.
Ao mesmo tempo que escovo os dentes não consigo parar e pensar no papo que tivemos sobre fidelidade e a forma convicta com que Cássia defendeu um ponto de vista de quem não acredita na exclusividade do amor. Na verdade, fiquei cismado justamente pelo fato de surgir um sentimento igual e simultâneo a respeito de duas pessoas totalmente diferentes: Bárbara e Vitória. Uma mora no passado, outra mora no presente. Qual é, enfim, a relevância do deslocamento temporal quando o que importa é o sentimento que me surpreende agora?
Acho que nunca tomei tanto chimarrão em toda a minha vida. Recosto a cabeça no travesseiro e não consigo parar de pensar. É incrível como precisamos desistir do dia para que possamos atravessar a noite com a calma que o sono exige. Desistir do dia e de todos os pensamentos inerentes a ele. Às vezes penso que no espaço de um dia sintetizam-se todas as possibilidades de uma vida e que não seria necessário mais que um só dia para se justificar uma existência.
Hoje não quero ficar olhando pro teto, vou tentar dormir de bruços com o travesseiro servindo de apoio para o braço. A ansiedade me faz virar de um lado para o outro sem parar, aumentando ainda mais a distância que tenho de sono. Vou me concentrar no barulho do mar que, assim como eu, não descansa..
…ouço cada eco sobreposto ao som original das ondas e sinto que não estou mais na cama, não tenho certeza se saí voluntariamente ou se fui retirado de lá assim de supresa, o fato é que não estou mais lá e preciso prestar atenção na imagem que vem surgindo. Uma imagem única. Vejo cores incríveis ocupando espaços opacos e não sinto frio ou calor. Posso ver o cômoros e o ponto onde quebra a última onda, as gaivotas planando no silêncio da maior serenidade que já presenciei enquanto permaneço imóvel neste instante que me pede para me portar assim. Estou esperando, não sei exatamente o quê. Sei que estou esperando. Por um segundo me passa pela cabeça a possibilidade de que não aconteça nada e assim eu permaneça pela eternidade. Não posso afirmar qual é o meu desejo, sinto um pouco de medo quanto ao que possa vir, e um grande receio de que nada venha. Aos poucos um movimento cadenciado das nuvens coloridas deste céu psicodélico. Tudo começa a acelerar e acelerar, o vento começa a sacudir tudo, até mesmo meu corpo incrustado na terra, longe do poderio dos pássaros. Não há mais luz.

Capítulo 5

fevereiro 22, 2011

Veja só, uma amiga, e não é qualquer amiga. Bárbara me fez ficar mudo. Uma morena com a pele escura e os olhos claros, os cabelos castanhos e um sorriso espontâneo e acolhedor, como se apenas o sorriso já nos envolvesse num abraço.
– Tu acha mesmo que é perigoso deixar a porta aberta aqui na praia? – Perguntou Bárbara.
Na verdade, eu nem acho tão perigoso assim, mas é melhor prevenir do que remediar.
– Claro que é perigoso. Tem um monte de louco solto por aí.
– A Cássia me falou do teu tombo hoje de manhã. Tudo bem?
–  Tudo bem, foi só um surto. Um descuido bobo.
Com o canto do olho, posso ver Cássia na cozinha com mão pronta para apagar o fogo na chaleira. Da cozinha, vem o grito:
–  Você não quer tomar um chimarrão com a gente?
– Aceito – sem hesitar.
Engraçado eu aqui sentado em frente a essas duas mulheres. De fato, gosto de fazer esse exercício, parar e observar o momento presente como se tivesse sido transportado de um outro não-subsequente. Tipo túnel do tempo. Há pouco estava só, deitado em uma rede inventando cenários ao som das ondas e das gaivotas. Agora cá estou. Às vezes me permito ir mais longe, me imaginando nesta mesma sala, correndo atrás de Vitória pelos cantos desta casa que mais parece um labirinto.
Lembro de um dia em que fomos até o segundo andar. Os pais e as irmã de Vitória tinham ido passar o dia em Cidreira, enquanto ela, excepcionalmente, decidiu ficar. Eu estava no final dos meus onze anos e no auge das minhas dúvidas sobre sexo. Na subida da escada que levava até o outro piso já pude sentir as intenções dela. Em frente à sua cama, paramos e ficamos de pé esperando que os gestos transformassem aquela tarde. Sem a calma que o tempo me traria, taquei um beijo desajeitado e corri para fora de casa. Antes que ela enxergasse a vergonha que se estampara em meu rosto, saí deixando para trás muito mais que apenas um beijo. Na cabeça dela existiam possibilidades que eu não imaginava. Na minha, seria impossível ir mais adiante do que apenas o beijo. O medo e a responsabilidade da iniciativa adiaram aquela que foi a minha primeira oportunidade de desmistificar Vitória.
Desta imagem tenho que voltar de súbito para o presente para que o exercício proceda, como se corresse do andar de cima para a sala e encontrasse Cássia e Bárbara. Consigo até ver a cena onde eu, com onze anos, paro em frente a essas duas mulheres depois de descer a escada com o rosto enrubescido. Basta olhar no espelho do corredor.
– Obrigado – falo, passando o chimarrão pra Bárbara.
– Então você não quer mais?
– Por quê? – falo, sem entender a razão da pergunta.
– Quando a gente passa o chimarrão e fala obrigado, não significa que você está agradecido e sim que você está satisfeito. É assim que funciona a cultura dos chimas, entre outros lances.
– Ah, é! Como o costume de não passar a cuia antes de terminá-la.
– Isso mesmo, ou então o lance de passar a cuia somente com a mão direita, e se assim não se fizer, pede-se então desculpa pela mão. (Risos)

Capítulo 4

fevereiro 22, 2011

Fomos para o show e, no ônibus, eu estava leve. Na cidade, nos receberam como celebridade e, à noite, o show estava lotado. Não tivemos nenhum problemas com bandas de abertura nem com pagamentos ou equipamento de som, O Monteiro estava calmo, apesar de ter brigado com o porteiro do hotel. Quando tudo estava calmo demais, ele dava um jeito de brigar com alguém e, nesse caso, ninguém melhor que um porteiro para se puxar uma briga. Nada de mais, só uma briguinha. No show, correu tudo perfeito, a banda já estava no final da turnê e o público já era composto, além das pessoas da cidade, de alguns grupos que começavam a seguir a banda. O mais marcante era um grupo chamado Bala-Bala. Eles bebiam tanto que, no final dos shows, ficavam deitados no meio do salão como uma pilha e corpos até que alguém os jogassem para fora.
Naquela noite, conheci uma menina que durante o show passou o tempo inteiro me olhando. Eu normalmente não ficava com ninguém; primeiro, porque não era artista e, depois, porque gostava e fazer o meu trabalho sem perder mais concentração do que já perdia ao ficar admirando o som, que me fascinava. Ela se aproximou assim que acabei de recarregar o ônibus na saída bar, antes da volta para o hotel.
– Tu trabalha há muito tempo com a banda? – perguntous ela, puxando conversa.
– É, faz um tempo.
Depois de quinze minutos de conversa frente ao bar, convidei-a para entrar no ônibus, que possuía poltronas confortáveis. Seu rosto era bem delineado e seu nariz chamava atenção: era bonita, magra, bem branquela e alta. Assim que ficamos mais à vontade, comecei a sentir o clima de abertura, enquanto ela desenvolvia um papo cabeça do tipo:
– Acho que as pessoas são muito materialistas, blá, blá….
Eu criava feições com os lábios improvisando todo charme que pudesse encontrar. Esperei mais um pouco, pra ter certeza de que não estava me precipitando, e, livrando o cabelo do seu rosto, inclinei-me para o beijo que daria início àquela viagem. Usava o maior número possível de membros para tocá-la com firmeza, acariciava cade pelinho tentando sempre ir mais adiante. Aos poucos consegui conquistar a região norte, com um certo esforço desabotei a blusa de chenile e, com sorte, consegui deslocar o sutiã ao ponto de alcançar as duas colinas tão sonhadas. Para a região sul não era assim tão fácil, ela relutava usando todos os argumentos possíveis, enquanto eu aproveitava os papos dela para reargumentar.
Cada instante se passava mais intenso. Sentia meu corpo quente, e com aquela dificuldade toda, já começava a surgir uma pequena dorzinha. Fui obrigado a criar mais espaço abrindo os dois primeiros botões da minha calça jeans coringa. O tempo passava e eu comecei a ficar preocupado com o retorno da banda para o ônibus. Depois de quase uma hora de beijos e amassos, ela estava finalmente, apenas de calcinha. E de calcinha ela ficou mais tempo que eu esperava.
– A gente já chegou até aqui… – falava, tentando persuadi-la.
– Uh, calma! – ela dizia, numa entonação contrária ao texto.
Estava explodindo, que ela jogou-se para trás e soltou uma frase que me fez disparar o coração, enquanto segurava a calcinha pelas laterais com as duas mãos.
– Tem uma coisa que eu não te disse!
– O que é? – falei, surpreso.
– Eu não sou menina.
O silêncio mais absoluto intalou-se ali naquele instante. Tudo emudeceu… As cores se foram e eu fiquei sem fala. O barulhodo bate-estava que não cessava, em um momento de choque. Não desviei o olhar dela, ou melhor; dele. Não estava acreditando. Bem que eu tinha reparado na estatura exuberante e levemente desproporcional. Em uma fração de segundo, questionei minha masculinidade e minha real relação com o homossexualismo. Analisei o que significava tudo aquilo para ela e para mim e quais as consequências das minhas possíveis reações. Lembrei das frases violentas dos amigos mais radicais e permaneci mudo por quase trinta segundos, escorado nas costas da poltrona à nossa frente. Comecei um esclarecimento explicando que, apesar de respeitas as opções sexuais, não sentia atração por ele, ou ela, e antes que eu começasse surgiu a frase que eu já não esperava mais:
– Brincadeirinha!
Ao mesmo tempo que eu não acreditava naquela brincadeira insólita um grane alívio tomava conta de todo o meu corpo tenso, na verdade nem todo, pois uma parte dele havia perdido toda aquela cena e ficar com aquele sorriso aberto no rosto. Recuperei a tensão necessária, busquei no bolso de dentro do casaco uma camisinha que guardava há algum tempo e deixei que os nossos desejos tomassem conta do resto, seguro de que ela dominava melhor do que eu aquela dança.

Capítulo 3

fevereiro 22, 2011

A areia batida vai em direção ao sul sem que se veja um só obstáculo. De um lado, dunas estranhas cheias de uma vegetação rala e pequenas flores sem um mar alto, visto de uma margem plane e sem o altar das praias de baía. Meu olhar está parado em direção ao norte. Em seu reflaxo estão os mesmos vazios que encontram ao sul. Quase quinhetos quilômetros de extensão sem sequer um pequeno rochedo que remeta àquela imagem tropical contida nos folhetos turísticos. O mar revolto não desvia meu olhar firme que permanece em direção ao norte. As águas ali não têm o azul dos outros mares, nem a simetria das ondas calmas com suas cortinas de spray. O vento é o pai desta pintura turva e também o pai das lembranças que meu olhar vê nos vazios deste lugar. Viro o rosto lentamente enquanto uma névoa de areia corre rasteira levando alguns galhos secos sem que nada os detenha. Escuto o chamado de minha mãe vindo de um verão remoto:
– Venham pra dentro que já está tarde!
Ficávamos até o último raio de luz correndo por aqueles lugares, jogando taco e surfando. Naquele verão eu conheci Vitória. Lembro claramente do primeiro dia que conversei com ela.
– Já vamos!
Corríamos para dentro e parávamos em frente à porto do banheiro para disputar a fila do banho. Eu não fazia muita questão de ser o primeiro, preferia dar passagem pra depois poder ficar me esfregando, enquanto aquela água doce escorria pelo meu corpo arrepiado. Não sei exatamente por que vim para cá. O certo é que já estou aqui há dois dias e não tenho a menor vontade de voltar. Sinto uma intuição estranha que parece me desafiar, escondendo de mim as razões desta vinda. Como se tudo tivesse apagado e aqui, de alguma forma, ressurgissem histórias que preciso escutar. Realmente não lembro de nada recente, como os dias anteriores à minha chegada ou até mesmo os últimos meses. Está tudo obscuro além desta intuição rasa que não arrisca nenhum palpite. Olho para este mar turvo e me surpreendo ainda mais por ter voltado assim no auge do inverno. Fico projetando o meu tamanho em relação às coisas, ao horizonte longínquo que impõe sua imensidão sobre a minha insignificante estatura, ao marisco ansioso que não se importa com a lua e se enfia areia adentro com medo de ser apanhado por alguém como eu. Que saudade dos bolinhos de mariscos feitos por minha mãe naqueles verões… Lá o pensamento surgia leve e despreocupado. Tão leve que, só e lembrar, flutuo um pouco, anestisiado pela sua leveza.
Em noite de lua cheia saíamos para o arrastão dos mariscos. A corrida iniciava junto com a onda. Sobre o véu prateado que tomava toda a praia após o recuo da maré, nos jogávamos pegando quantos mariscos as nossas pequenas mãos conseguissem carregar. Posso até sentir o gosto dos bolinhos fritados na hora em que voltávamos para casa, depois daquelas pescarias com jeito de caçada. Já está ficando escuro e o sol não atenua mais o frio do vento. Volto o olhar para o norte e percebo que a falta de claridade já esconde a linha do horizonte, alvo dos meus desvaneios. Por que, afinal, estou aqui completamente sozinho e desconectado, como se acordasse subitamente na pele de outra pessoa?
Vou entrar e preparar uma bebida quente antes que a noite se instale. Estou com os braços cruzados e não sinto vontade de fazer nada além de permanecer na calma deste balneário abandonado. Surgem, na minha cabeça congelada pelo vento cortante, flashes de  uma época específica, quando veraneávamos, passeando sob o sol e as sombras da antiga casa. Foi exatamente nesta época que eu fiz minha primeira viagem com banda…

Capítulo 2

fevereiro 22, 2011

Vejo alguns pequenos cômoros antes do Clube de Pesca. Já faz algum tempo que saí de casa para esta fuga disfarçada de passeio. Que lugar imenso! Uma praia repleta de vazios propícios para a hegemonia do vento. Um espaço sem barreiras onde me enxergo na proporção de apenas um homem ao sol deste lugar distante de mim mesmo. Onde estou na verdade? Sei que minha alma não está comigo, está viajando para os endereços que minhas lembranças ou projeções a enviam.
Uma sensação de conforto invade meu corpo quando me transporto para os lugares mais agradáveis da minha imaginação estando sempre lá e aqui, um ou outro. Vivendo o que penso enquanto penso o que vivo. Onde estará a Vitória? Agora tenho certeza que não a encontrei aqui na praia. Olha para aquele gramado e vejo que o tempo passou implacável por nós. Lembro de imagens congeladas que ficaram na lembrança como um disco arranhado repetindo sempre a mesma fração. Não sei se isto é bom, pois a memória guarda tudo que marca, e tudo de tudo, apesar da impressão de que muito se perde. Cá estou divagando de novo. Sempre falando baixinho, avaliando e concluindo coisas. Até quando ficarei concluindo coisas?

Capítulo 1

fevereiro 22, 2011

Agora estou aqui nesta cama gélida, tentando transferir todo o calor do meu leve corpo para esta coberta fria e sem vida. Não sinto vontade de dormir e acabo sendo obrigado a escutar tudo que vem à cabeça. Luto contra mim mesmo nessa tentativa frustada de me desconectar do próprio pensamento. Quanto mais eu tento, mais altas são as vozes que me importunam e não me deixam relaxar. Alguém passeia pelos meus desvaneios em conversas intermináveis sem que eu crie mais do que apenas uma vaga familiaridade.
Não consigo dormir porque no fundo não quero mesmo, preciso lembrar de algumas coisas antes que eu desista do dia de hoje. No teto, não vejo luzes nem reflexo. Aqui a noite é realmente escura. Quase tão escura como a noite em que peguei pela primeira vez na mão de Vitória.