Capítulo 5

Veja só, uma amiga, e não é qualquer amiga. Bárbara me fez ficar mudo. Uma morena com a pele escura e os olhos claros, os cabelos castanhos e um sorriso espontâneo e acolhedor, como se apenas o sorriso já nos envolvesse num abraço.
– Tu acha mesmo que é perigoso deixar a porta aberta aqui na praia? – Perguntou Bárbara.
Na verdade, eu nem acho tão perigoso assim, mas é melhor prevenir do que remediar.
– Claro que é perigoso. Tem um monte de louco solto por aí.
– A Cássia me falou do teu tombo hoje de manhã. Tudo bem?
–  Tudo bem, foi só um surto. Um descuido bobo.
Com o canto do olho, posso ver Cássia na cozinha com mão pronta para apagar o fogo na chaleira. Da cozinha, vem o grito:
–  Você não quer tomar um chimarrão com a gente?
– Aceito – sem hesitar.
Engraçado eu aqui sentado em frente a essas duas mulheres. De fato, gosto de fazer esse exercício, parar e observar o momento presente como se tivesse sido transportado de um outro não-subsequente. Tipo túnel do tempo. Há pouco estava só, deitado em uma rede inventando cenários ao som das ondas e das gaivotas. Agora cá estou. Às vezes me permito ir mais longe, me imaginando nesta mesma sala, correndo atrás de Vitória pelos cantos desta casa que mais parece um labirinto.
Lembro de um dia em que fomos até o segundo andar. Os pais e as irmã de Vitória tinham ido passar o dia em Cidreira, enquanto ela, excepcionalmente, decidiu ficar. Eu estava no final dos meus onze anos e no auge das minhas dúvidas sobre sexo. Na subida da escada que levava até o outro piso já pude sentir as intenções dela. Em frente à sua cama, paramos e ficamos de pé esperando que os gestos transformassem aquela tarde. Sem a calma que o tempo me traria, taquei um beijo desajeitado e corri para fora de casa. Antes que ela enxergasse a vergonha que se estampara em meu rosto, saí deixando para trás muito mais que apenas um beijo. Na cabeça dela existiam possibilidades que eu não imaginava. Na minha, seria impossível ir mais adiante do que apenas o beijo. O medo e a responsabilidade da iniciativa adiaram aquela que foi a minha primeira oportunidade de desmistificar Vitória.
Desta imagem tenho que voltar de súbito para o presente para que o exercício proceda, como se corresse do andar de cima para a sala e encontrasse Cássia e Bárbara. Consigo até ver a cena onde eu, com onze anos, paro em frente a essas duas mulheres depois de descer a escada com o rosto enrubescido. Basta olhar no espelho do corredor.
– Obrigado – falo, passando o chimarrão pra Bárbara.
– Então você não quer mais?
– Por quê? – falo, sem entender a razão da pergunta.
– Quando a gente passa o chimarrão e fala obrigado, não significa que você está agradecido e sim que você está satisfeito. É assim que funciona a cultura dos chimas, entre outros lances.
– Ah, é! Como o costume de não passar a cuia antes de terminá-la.
– Isso mesmo, ou então o lance de passar a cuia somente com a mão direita, e se assim não se fizer, pede-se então desculpa pela mão. (Risos)

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