Capítulo 6

Agora estou atualizado sobre as manhas de manuseio dessa bebida típica do Rio Grande, afinal de contas, já faz um tempo que estou aqui jogando conversa fora entre um mate e outro. A Cássia me parece uma pessoa bem descolada, daquelas que falam com a leveza e quem não atribui às palavras a importância irreversível e cada sentença. A Bárbara é mais serena, traz um pouco daquela calma invejável que é a base da elegância.
– O que vocês estão fazendo aqui neste fim de mundo? – pergunto com um ar de surpreso.
– A gente trabalha com pesquisas de animais e plantas, vamos ser biólogas. Estudamos os bichinhos.
Eu tinha certeza e que elas eram biólogas, foi o meu primeiro palpite.
– Que bacana, acho masse essa área. Os animais têm muita coisa pra ensinar pra gente, que anda tão distante da natureza.
– Principalmente sobre o sexo – disse Cássia com um tom irônico.
– Cássia, vê se não começa! – falou Bárbara.
– A fidelidade é um privilégio de pessoas feias, gordas e desinteressantes – falou Cássia ainda mais irônica.
A frase soa bombástica na peça que tem o tamanho do mundo. Ficarei quieto por alguns instantes enquanto assimilo o fato de que ela realmente tenha dito isso.
– Eu acho que você está sendo radical demais, Cássia – falou Bárbara.
– O chimarrão esfriou – falei, pra desviar um pouco o assunto que surgiu de sobressalto na conversa.
Tudo bem que eu já estou aqui há um bom tempo, mas não dá pra não achar estranho que elas levem esse tipo de papo na frente de alguém tão pouco íntimo como eu. Claro que não é necessariamente fundamental a intimidade para discutir questões como estas, mas que é gozado é. Começa agora a me passar pela cabeça um monte de possibilidades: para que duas gurias consigam formular uma conversa dessas sem nenhum constrangimento é preciso uma cabeça “aberta”, o que me faz pensar que elas possam ser até namoradas.
– Tá certo que o conceito de fidelidade é baseado em questões ecônomicas e culturais, mas também não é bem assim. Tem um monte de gente que curte o lance de ser fiel sem necessariamente fazer parte desses grupos dos feios, gordos ou desinteressantes – falou Bárbara, tentando amenizar um pouco aquela sentença extravegante.
– Então é por sacrifício.
– Qual, é Cássia? O nosso vizinho deve estar apavorado com estes teus exageros.
– Não, continuem a discussão. Eu quero entender o que a Cássia quer dizer com essa história de sacrifício.
– Na verdade, as pessoas todas se relacionam na base do sacrifício. O fato de se privar das coisas tentadoras da vida traz uma espécie de direito de uma pessoa sobre a outra. O direito da cobrança do sacrifício. Eu me sacrifiquei por você então você me deve. Como uma moeda medida pelo quanto um se sacrifica a mais que o outro.
Ao mesmo tempo em que presto atenção no sermão da Cássia, não consigo deixar de reparar no jeito da Bárbara. Seus lábios, a expressão de quem, com toda calma do mundo, escuta uma argumentação contrária às suas convicções e nem por um segundo desfaz o semblante seguro de quem se gosta. Esta é a principal questão, ela se gosta. Posso ver isso nos seus olhos. Ela faz com que o reflexo do que somos se amplie ao passar por sua percepção. Como que servindo de filtro para melhorar a nossa própria imagem.
– Ok, Cássia, de certa forma eu acho que tem muita coisa coerente no que tu tá falando, mas vamos mudar de assunto – falou Bárbara com a voz firme.
– Bárbara, tu sabe que eu gosto de falar umas frases de efeito e que não sejam necessariamente mais do que apenas frases para que a gente possa falar e refletir de alguma forma. ‘Uma verdade deixa de ser uma verdade quando mais de uma pessoa acredita nela.’ Oscar Wilde.
A Cássia está se espreguiçando ao mesmo tempo que olha sutilmente para o relógio. Hora de cair fora.
– Acho que já está ficando tarde.
– Imagina! – fala Cássia, confirmando minhas suspeitas, enquanto Bárbara olha para mim.
Vejo no rosto de Bárbara algo que me intriga, uma familiaridade estranha, como se de alguma forma eu já a conhecesse e por ela sentisse uma prediposição. Na verdade, o que mais me ajuda a acreditar nisso é o sentimento que percebo por Cássia. Uma sensação bem diferente, gosto dela, mas não sinto familiaridade nenhuma, pelo contrário, parece ser uma presença que de alguma forma me incomoda.
Dei os três beijinhos em cada uma e agora estou aqui na rua há mais ou menos dez passos de casa. A cada passo que dou sinto passear por um universo atemporal onde o cenário é propício para qualquer projeção. Estou pensando em Bárbara mas ao mesmo tempo todo este ambiente, o muro, o orvalho, os insetos, o barulho das ondes, me trazem Helena e a lembrança conturbada de algo que ficou para trás.
A porta não está trancada. Estou confuso com relação ao sentimento que me despertou a Bárbara e ao que de fato elas têm uma com a outra. Posso estar viajando ao suspeitar sobre o comportamento das duas. A propósito, esqueci de perguntar até quando elas pretendem ficar aqui na praia com este frio todo.
Ao mesmo tempo que escovo os dentes não consigo parar e pensar no papo que tivemos sobre fidelidade e a forma convicta com que Cássia defendeu um ponto de vista de quem não acredita na exclusividade do amor. Na verdade, fiquei cismado justamente pelo fato de surgir um sentimento igual e simultâneo a respeito de duas pessoas totalmente diferentes: Bárbara e Vitória. Uma mora no passado, outra mora no presente. Qual é, enfim, a relevância do deslocamento temporal quando o que importa é o sentimento que me surpreende agora?
Acho que nunca tomei tanto chimarrão em toda a minha vida. Recosto a cabeça no travesseiro e não consigo parar de pensar. É incrível como precisamos desistir do dia para que possamos atravessar a noite com a calma que o sono exige. Desistir do dia e de todos os pensamentos inerentes a ele. Às vezes penso que no espaço de um dia sintetizam-se todas as possibilidades de uma vida e que não seria necessário mais que um só dia para se justificar uma existência.
Hoje não quero ficar olhando pro teto, vou tentar dormir de bruços com o travesseiro servindo de apoio para o braço. A ansiedade me faz virar de um lado para o outro sem parar, aumentando ainda mais a distância que tenho de sono. Vou me concentrar no barulho do mar que, assim como eu, não descansa..
…ouço cada eco sobreposto ao som original das ondas e sinto que não estou mais na cama, não tenho certeza se saí voluntariamente ou se fui retirado de lá assim de supresa, o fato é que não estou mais lá e preciso prestar atenção na imagem que vem surgindo. Uma imagem única. Vejo cores incríveis ocupando espaços opacos e não sinto frio ou calor. Posso ver o cômoros e o ponto onde quebra a última onda, as gaivotas planando no silêncio da maior serenidade que já presenciei enquanto permaneço imóvel neste instante que me pede para me portar assim. Estou esperando, não sei exatamente o quê. Sei que estou esperando. Por um segundo me passa pela cabeça a possibilidade de que não aconteça nada e assim eu permaneça pela eternidade. Não posso afirmar qual é o meu desejo, sinto um pouco de medo quanto ao que possa vir, e um grande receio de que nada venha. Aos poucos um movimento cadenciado das nuvens coloridas deste céu psicodélico. Tudo começa a acelerar e acelerar, o vento começa a sacudir tudo, até mesmo meu corpo incrustado na terra, longe do poderio dos pássaros. Não há mais luz.

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